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O pau que nasce torto

Não tem jeito, morre torto. O chiste popular é este. E cai como uma luva no presente. Foi só aparecer um feriado para gentes de todas as classes e categorias correrem para as praias e locupletarem as mesas de bares. A pandemia continua e agradece as gigantescas aglomerações formadas no feriadão. Daqui a alguns dias, vamos ver se registramos uma curva ascendente no número de contaminados e mortos, em função da ausência de cuidados nesses dias, ou, quem sabe, veremos a prova definitiva de que Deus é brasileiro e concedeu a graça de afastar do nosso meio essa demoníaca Covid-19. Tenho a impressão de que não será ainda desta vez que o Misericordioso mostrará ter escolhido nossas plagas como seu habitat terreno.

Itália, Espanha e França
Pois é. Sinalizações mostram que uma segunda onda ameaça tomar corpo em alguns países. Curva voltou a subir em alguns países.

Panorama político
A esfera política indica que aliviará a reforma administrativa, amenizando pontos fixados pela área do Paulo Guedes. Maia e o ministro estarão juntos em live esta semana, apesar da exposta disposição do presidente da Câmara em estabelecer certo distanciamento de Guedes. Mas a política é uma gangorra. Vai e vem. Os parlamentares querem se livrar logo da pauta reformista que chegou ao Congresso para se dedicar à campanha municipal.

Reforma tributária
Apesar do esforço de muitos e da maratona de palestras do Luiz Carlos Hauly, o nosso mestre na frente dos tributos, será muito difícil que esta seja levada a cabo nas próximas semanas. Dependerá e muito de equilíbrio e consenso, coisa difícil em matéria de recursos para municípios, Estados e União. A simplificação e a junção de alguns tributos em um só, nos moldes de um IVA, parece situação consensuada. A chave da porta está com Rodrigo Maia, hábil na arte da articulação.

Guedes ainda com apoio
Paulo Guedes continua a ser prestigiado pelas forças do chamado mercado, que o vê como o perfil mais apropriado para liderar o campo reformista na economia. Esse jogo de esconde-esconde, com a participação do presidente Bolsonaro, que disse não ter gostado da ideia de cortar ao meio o auxílio emergencial, parece coisa combinada. É fato que Bolsonaro admira o ministro e vice-versa. Portanto, não se espere que PG peça o boné.

Desce ou sobe
O auxílio de R$ 300 até o final do ano e a concentração de outros instrumentos que integram o pacote assistencialista no programa Renda Brasil deverão chegar a uma conta que não diminua o montante hoje auferido pelas margens. Questão de vida ou morte para o presidente. O eleitorado carente sabe qual o tamanho do pacote que chega à sua casa. Cortado, Bolsonaro descerá o despenhadeiro. Aumentado, subirá às estrelas.

Lava Jato
Observação da mídia e dos analistas: os políticos, sob a égide do procurador-Geral Augusto Aras, estão apreciando, e muito, a desidratação da operação Lava Jato. Os demissionários procuradores de São Paulo e o afastamento de Deltan Dallagnol foram comemorados por ampla galera. Os advogados criminalistas vivem momentos de confraternização. E apostam que o novo presidente do STF, a partir de hoje, Luiz Fux, contribuirá para a desidratação da LJ. Anote-se que, nos últimos tempos, sob o clima da pandemia e das atividades virtuais dos ministros da Corte, a operação perdeu fôlego, dispersando suas torcidas organizadas e dando lugar a outras preocupações.

R$ 1 bilhão para credos
Os credos evangélicos viram aprovado um projeto que anula dívidas tributárias acumuladas por eles, com multas aplicadas pela Receita Federal, coisa se R$ 1 bilhão. Repito: R$ 1 bilhão. A bancada evangélica faz parte do bastião de defesa e apoio ao presidente, que terá até sexta- feira para sancionar o projeto, de autoria do deputado David Soares (DEM-SP), filho do missionário R.R.Soares. A coisa mais parece um ‘toma lá, dá cá’. Para conceder este tipo de anistia, deve estar sobrando muito dinheiro no caixa do Governo.

Enquanto isso…
A chanceler alemã Angela Merkel, líder de uma potência, uma das pessoas mais poderosas do planeta, não recebe nenhum serviço gratuito do Estado. Nenhum, repito. Privilégio passa longe do cargo. Nem moradia, luz, água, gás ou telefone grátis. Nenhuma de suas despesas pessoais é paga pelo povo alemão. E ainda, ela não mora em palácio. Qualquer cidadão pode circular pela calçada do edifício de Berlim onde ela e o marido vivem.

Impeachment
O impeachment do governador Wilson Witzel obedece aos ritos processuais apropriados. A previsão é que as sessões se estendam até dia 17 deste mês, completando as cinco necessárias. Caso dois terços dos 70 deputados, ou 47 votos (ele teria uns 15 votos), decidam pelo recebimento da denúncia, o governador ficará duplamente afastado ? pelo STJ e pela Alerj ? e será julgado por um tribunal misto, formado por cinco desembargadores e cinco deputados. O grupo, presidido pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado (TJ/RJ), dará a palavra final sobre a perda de mandato do governador. O prazo para a conclusão dessa fase de julgamento é de 180 dias.

Mais uma leva
Há pelo menos seis governadores sob a mira do MP, acusados de terem autorizado ‘operações ilícitas’ na aquisição de equipamentos para combater a pandemia. Os desvios teriam chegado a 4 bilhões de reais; ações estão em curso em alguns Estados. Difícil imaginar que aconteça o impeachment de mais governantes.

Polarização na campanha
Nas capitais e grandes cidades a campanha municipal tende a ser polarizada, com a expressão e atitudes agressivas entre grupos bolsonaristas e oposicionistas. Nas pequenas cidades e localidades do interiorzão do país, a campanha vivenciará o velho clima de atendimento de demandas, favores e recompensas.

Sola de sapato
Mesmo sob o temor que ainda provocará a pandemia, nos meados de novembro, os candidatos deverão gastar muita sola de sapato para se fazerem conhecer. O eleitor está desconfiado.

Perfil pessoal
A identidade do candidato – quem é, quem foi no passado, o que fez e faz, seu pensamento, sua palavra – será mais importante que o seu partido, que deverá ficar escondido na campanha.

Saúde
A saúde, por motivos óbvios, será o tema central da campanha. A falta de equipamentos hospitalares dará o tom maior.

Minorias
Veremos uma campanha em que a defesa das minorias encampará discursos de candidatos. As mulheres, por sua vez, comporão em grande número as indicações de chapas majoritárias, como cabeça de chapa ou na condição de vice.

Recursos
É possível prever uma avalanche de acusações e denúncias sobre recursos que foram mal distribuídos, ou distribuídos injustamente, desvios de finalidade, falta de critérios etc.

Fake news
Fiscais, auditores e juízes de Tribunais Regionais Eleitorais trabalharão muito mais para coibir os abusos a serem cometidos nas redes sociais, principalmente prováveis ondas de fake news.

A base e os 2 andares acima
Deverão ser eleitos 5.570 prefeitos e quase 60 mil vereadores. Este ano, pela primeira vez, candidatos ao cargo de vereador não poderão concorrer por meio de coligações. O fim delas na eleição proporcional foi aprovado pelo Congresso Nacional por meio da reforma eleitoral de 2017. Com isso, o candidato a uma cadeira na Câmara Municipal somente poderá participar do pleito em chapa única dentro do partido ao qual é filiado. Esses vereadores formarão a base do edifício político, a ser completado com os dois andares a serem construídos em 2022, com a eleição de 27 governadores, 27 senadores (que se somarão aos 54 eleitos em 2018), 513 deputados Federais e 1.059 deputados estaduais, presidente da República e vice.

Mais de um milhão
A campanha deste ano, em face da proibição de coligações proporcionais, deverá ter mais de um milhão de candidatos que poderão ser apresentados por 33 partidos.

Fecho a coluna com Pero Vaz de Caminha.

A malandragem
Não são poucos os que identificam a malandragem no Brasil com o princípio de nossa história.

Eis o finalzinho da Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal.

‘E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo.

– E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que dela receberei em muita mercê.’

E conclui Caminha: ‘Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha.’

Um pedido aqui, um trololó acolá e uma dose de bajulação.

 

 

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